Não segui em frente com a série Mad Men. Achei chato. Reencontrei, nesse meio tempo, um famoso “soneto” (entre aspas porque paródico) de Augusto de Campos. Ele diz assim:
“desta vez acabo a obra” (Gregório de Matos)
drummond perdeu a pedra: é drummundano
joão cabral entrou pra academia
custou mas descobriram que caetano
era o poeta (como eu já dizia)
o concretismo é frio e desumano
dizem todos (tirando uma fatia)
e enquanto nós entramos pelo cano
os humanos entregam a poesia
na geléia geral da nossa história
sousândrade kilkerry oswald vaiados
estão comendo as pedras da vitória
quem não se comunica dá a dica:
tó pra vocês chupins desmemoriados
só o incomunicável comunica
A intenção polêmica é clara. “Tó pra vocês chupins desmemoriados”. O poema aparece junto com o livro Balanço da Bossa e Outras Bossas, de 1974. 1974 é um ano em que Caetano Veloso não lançou trabalho inédito. Em 73 havia saído Araçá Azul e em 75 viria o par de discos Jóia e Qualquer Coisa. Estes três álbuns demarcam a aventura experimental de Caetano. A radicalização em Araçá Azul e a distensão lenta e gradual rumo ao pop a partir dos LPs de 1975. Augusto de Campos no soneto escolhe esculhambar Drummond e João Cabral. Drummond é do Brasil o poeta metafísico por excelência, alcunhá-lo mundano é golpe forte, ataque para não restar dúvida. Cabral, reprovar um poeta por se deixar eleger para a Academia Brasileira de Letras, hoje soa quase sem sentido; em 69, quando o escritor tomou posse, claramente servia para polarizar o “mundo”. “Pedra” na poética de Drummond e em João Cabral tem força de fundamento: a pedra que havia “no meio do caminho”, do primeiro momento do “anjo torto” de Carlos e a Educação Pela Pedra de João Cabral. No entanto, Sousândrade, Kilkerry e Oswald - os vaiados - é que “comem as pedras da vitória”. Os que seguem “tirando uma fatia” do concretismo, estes (vendo bem - “todos”), foram derrotados. Afinal, custou, “mas descobriram” que Caetano é que era “o poeta”, como Augusto “já dizia”. Convém lembrar que Augusto de Campos é o autor de Viva Vaia, poema gráfico que explica a possibilidade de se receber vaias como aplausos e aplausos como vaias bastando, para isso, levar a julgamento a platéia que vaia ou aplaude. Quando “só o incomunicável comunica”, os “humanos”, que “entregam” a poesia, se vaiarem, soarão como se aplaudissem. Seus aplausos, para os que “entram pelo cano”, são vaias, melhor não tê-los.
Os artífices do Tropicalismo jamais se mantiveram compromissados com esses axiomas “radicais”. Pelo contrário, abraçaram cada vez mais assumidamente os preceitos da indústria fonográfica. Seus currículos de experimentadores continuam, no entanto, sempre valorizados. Foi isto que garantiu a eles, na trama do show business, o papel daquele que assina em baixo e sacramenta. O papel daquele que tem competência para “reavaliar” e antever, por exemplo, nobreza na brega. Do que “vê melhor” e, por isso, pode “dar a dica”. Perigoso, não?
Volto a perguntar: por que a indústria fonográfica no Brasil alimentou tanto a figura do “intelectual”? Por que o negócio do entretenimento levou tanto tempo para se despojar do prestígio que lhe davam seus artistas considerados “sérios”?
Por Irajá Menezes