Irajá: Achei, dia desses, um artigo do Rubem Fonseca, sobre a morte e as mortes do romance.
O Fonseca é especialista em morte, né? O latrocínio em Feliz Ano Novo? A crueldade fria de O Cobrador? O conto em que o cara aceita o convite feito pelo legista e entra para assistir a autópsia da própria amante?
Bem, estou só brincando, o artigo não tem nada a ver com o universo esteticamente violento dos contos e romances do autor. O texto se chama A LITERATURA DE FICÇÃO MORREU? (Mais uma vez) e faz parte de uma série que ele batizou Pensamentos Imperfeitos.
Para ler na íntegra, acesse http://literal.terra.com.br/rubem_fonseca/index.htm
Vamos ao ponto. Rubem Fonseca passeia pela “história” da suposta morte da literatura. Localiza o primeiro necrológio por volta de 1880, passa pela invenção do Ford Model T e a criação do conceito de linha de montagem e “obsolescência programada” no início do século XX e, progressivamente, chega a alcançar o advento do computador e da internet. Para deixar claro que não acredita que “a literatura de ficção” tenha morrido em consequência de tais “progressos”, lista algumas dezenas de autores geniais que continuaram surgindo desde a data tomada como inicial. Como corolário cita Gabriel García Márquez: “se você diz que o romance está morto, não é o romance, é você que está morto”.

Não há novidade na polêmica, nem na réplica do escritor. Interessante é a hipótese que ele interpõe à discussão: “Uma coisa talvez esteja acontecendo: a literatura de ficção não acabou, o que está acabando é o leitor. Poderá vir a ocorrer este paradoxo, o leitor acaba mas não o escritor? Ou seja, a literatura de ficção e a poesia continuam existindo, mesmo que os escritores escrevam apenas para meia dúzia de gatos pingados?”
Em artigo posterior, CADÊ O LEITOR? ele diz: “Uma pesquisa recente sobre hábitos de leitura no meio universitário chegou a conclusões espantosas: 36 por cento dos pesquisados nunca, repito, nunca haviam lido sequer um livro de ficção. Uma minoria lia um ou dois livros de ficção durante o ano. Um número grande lera apenas um livro a vida inteira. Estamos falando de universitários.”
E fulmina: “Então o nosso problema não é o leitor ter morrido. É o leitor não ter nascido” (tem uma graça particular esta prosa dura que Rubem Fonseca pratica).
A conclusão a que ele chega é que, como Kafka, que “escrevia para um único leitor: ele mesmo”, ou Camões, que durante um naufrágio teve a esposa e todos os seus pertences tragados pelo mar mas salvou os manuscritos de Os Lusíadas, os “loucos” escritores, determinados por verdadeira “síndrome”, continuarão ignorando as intermitentes mortes da literatura: continuarão a escrever.
Penso que ele quer dizer que há um impulso que leva o ser humano a produzir objetos artísticos que, são, queiramos ou não, sempre algum registro - narrativa, portanto - de algo acontecido que quer permanecer. É do ser humano narrar. É do ser humano desejar permanecer.
Essa idéia, que, no fundo, isenta o artista da existência de um “público alvo” pode ser redentora. O mercado de trocas (outra instituição humana absolutamente indispensável) pressupõe “alvos”. As obras de arte parecem mais afeitas a um destino de “mensagem na garrafa”. “Não se afobe não / Que nada é pra já”, lembra, do Chico Buarque?
Não é à toa que a primeira data do artigo de Rubem Fonseca seja 1880. A virada para o século XX. O século do progresso, como disse o Noel Rosa. O século da comunicação de massas. Da indústria do entretenimento. A lógica mercantil/cientificista, de custo versus benefício, de causa e efeito que nos levou a avanços tão promissores (a expectativa de vida, por exemplo, duplicou, a mortalidade infantil é infinitamente menor do que há 100 anos), parece não se aplicar a qualquer expressão das interioridades humanas.
Enfim, se Rubem Fonseca tiver razão, o desaparecimento do leitor (do comprador de CDs, da platéia dos cinemas), deve levar artistas a reavaliar suas reais motivações. A que apelo atendo quando escrevo, desenho, componho?
“Pensamentos imperfeitos” são incompatíveis com a indústria. Já com as nossas histórias, são… tudo o que temos. Os “escafandristas, quiçá, virão explorar, decifrar os ecos, fragmentos, mentiras, retratos, vestígios, desvãos”.