Madison Avenue, estradas do Brasil e o rei Roberto: It’s a long, long, long way

Acabo de começar a ver uma série, “Mad Men”, sobre o mundo da publicidade norte-americana perto do início dos anos 60; indicação do blogueiro/guitarrista e homem de visão Gibson Bernardo, CEO do inguinoranssa.wordpress.com.

Mad vem de Madison Avenue; os homens da Madison, portanto. Que se pretendiam loucos.

No Em Minha Opinião passado resvalei no assunto Roberto Carlos. Enviei também texto para a Miscelânea do Blog das Cordas, noticiando os 50 anos de carreira que o Rei comemora em 2009. Reli o capítulo dedicado a ele no livro “O Cancionista”, de Luiz Tatit.

Roberto é uma matriz na música brasileira. Assim como Jobim, assim como Orlando Silva, Pixinguinha, Noel. Que seja uma matriz de qualidade duvidosa não faz dele menos matriz.

Para discorrer sobre o Rei, seu legado e o ambiente do início dos sessenta, descreverei, antes, uma parábola, no sentido de desviar do caminho reto: no site tropicalia.uol.com.br há uma seção chamada “Herdeiros Musicais”. Entre outros, depõe Chico César: “Eu, pessoalmente, não me considero filho de Caetano, nem sobrinho de Ariano (o escritor Ariano Suassuna). Sou mais descendente de Augusto dos Anjos do que um descendente direto do Tropicalismo. [...] Quando os tropicalistas fizeram uma festa para a Rede Globo, um programa chamado, sei lá… ‘Tropicalismo, todos os anos ou 30 anos’, os herdeiros do Tropicalismo a quem eles levaram foram os cantores de axé music. Eu acho então que a vitória mercadológica do Tropicalismo tem herdeiros muito claros, mercadológicos. Já está dito. A grande mãe Globo junto com os patriarcas do Tropicalismo, Caetano Veloso e Gilberto Gil, já disseram isso. Foi feito um evento para dizer isso”.

A vitória mercadológica do Tropicalismo é resultado direto da explosão da Jovem Guarda. O Brasil se industrializava e urbanizava no final da década de 50. A agência de publicidade de Carlito Maia encontrou terreno fértil para a “invenção” do fenômeno das “jovens tardes de domingo”. “Mad Men” traça um panorama daqueles tempos. O Brasil da indústria de entretenimento nascente e o Brasil das auto-estradas pareciam como nunca com a América do Norte. Mas por que o Brasil sentiu essa “vontade féla-da-puta de ser americano”, como perguntou o próprio Caetano naquele “Rock’n Raul”?

O modelo de desenvolvimento baseado na auto-estrada que o Brasil adotou, hoje é fácil entender, revelou-se catastrófico. Que tenha sido implantado em toda sua extensão por um presidente com o carisma de Juscelino Kubitschek, ajuda a pensar no artista Roberto Carlos. Aqui se inicia outra parábola: nas palavras de Luiz Tatit, há algo de “inexplicável em sua voz”, mas o que quer que venha a ser, o fato é que Roberto é um artista “compatibilizado visceralmente com a indústria musical”. Rei não imposto, ungido por merecimento, literalmente escolhido, Roberto Carlos é um rei industrial, desde o nascedouro.

O mesmo não se aplica à lógica da Tropicália. Movimento “cultural”, “antropológico”, “antropofágico”, pressupunha uma atitude contrária à produtividade industrial. Enquanto a indústria é puro movimento, um movimento, por natureza, existe para propor uma pausa. Mas se o Tropicalismo eclodiu para expor as contradições, dirão alguns. No entanto, com o passar do tempo, vamos dar ao Chico César o crédito que é do Chico César, o Tropicalismo acabou por escolher herdeiros e parceiros “muito claros”, nada contraditórios.

A pergunta é: o que faz com que a indústria precise de um Rei e também de um Grão Vizir? Que papel a grande mãe Globo entende que os patriarcas do Tropicalismo têm a desempenhar nessa Grande Família? Não é curioso que no panorama intelectualizado da efervescência da música brasileira dos anos 60, tenha que ter aparecido um grupo de artistas, vindos da própria MPB, que apontassem na figura de Roberto uma expressão “de importância”?

Voltando da parábola: a Jovem Guarda, vista de hoje, já a salvo dos preconceitos, é claramente um retrocesso na música do Brasil. No Brasil anterior à Jovem Guarda, sucesso de rádio era Carmen Miranda, Moreira da Silva, Sylvio Caldas, Luiz Gonzaga, Dorival Caymmi, Lamartine Babo, Ary Barroso. Na música brasileira, até a virada “pop” dos anos 60, simplesmente, não havia espaço para lixo! Parece inacreditável, mas é a mais pura verdade. A tal “bolerização” dos anos 50, não dura mais que cinco anos. E é totalmente “recessiva”. Nada “dominante”. “Chega de Saudade” é de 1958. Em 1953, Luiz Gonzaga lançou “Xote das Meninas”, “ABC do Sertão” e “Vozes da Seca”. Entre 1956 e 1958, Radamés Gnatalli escreveu nada menos que a “Suíte Retratos”. Radamés dedicou a suíte a Jacob do Bandolim, que para executá-la foi obrigado a aprofundar seus estudos de teoria musical. Jacob registrou com um gravador a estréia radiofônica de “Retratos” na Rádio Nacional, no final dos anos 50 e a partir daí estudou a obra continuamente para - enfim - gravá-la em fevereiro de 1964.

Foi diante deste quadro que se desenhou o retrocesso da Jovem Guarda.

A Jovem Guarda é retrocesso na medida em que adota caminhos harmônicos e melódicos simplórios na tentativa de imitar a música americana. É retrocesso lírico, abusando de ordens inversas (”e ninguém jamais viveu pra dizer que o contrariou sem depois morrer” ou “gritar eu quis, porém, a voz não me saiu”) e erros de prosódia, em tempos pós-Vinícius de Morais, derramando-se em melodramas depois da finíssima ironia melancólica de Orestes Barbosa, de Antônio Maria, da morbidez tragicômica de Lupicínio Rodrigues.

A Jovem Guarda é retrocesso industrial. O produto disco resultante do rigor da Bossa Nova era infinitamente mais bem produzido do que o som de orquestra de baile de subúrbio que os hits de iê-iê-iê impunham. O concorrente direto do programa de TV de Roberto e Erasmo era “O Fino da Bossa” de Elis e Jair.

Quem quiser saber como Roberto e sua turma almejavam ser bossa nova, sem conseguir, basta ler os capítulos iniciais da biografia de Tim Maia, escrita pelo fã ardoroso de Roberto, Nelson Motta .

Mas, ainda não chegamos à Tropicália. Continua no próximo episódio. Enquanto isso vou fazer download de mais um “Mad Men”.

Por Irajá Menezes

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