Carmen Miranda e as Vozes do Brasil

“Hoje em dia, qualquer um pode ser cantor, como costumam dizer aqueles que não sabem cantar”. Esta frase é dita pelo Burro, personagem de Os Saltimbancos*, musical infantil que Chico Buarque de Holanda verteu do italiano para o português na década de 70.

Na época em que Os Saltimbancos foi lançado todos já nos havíamos acostumado aos cantores de voz chinfrim, adjetivo que Chico Buarque, para definir a sua própria voz, celebrizou no maxixe Até o Fim. A lista de vozes, no mínimo, estranhas, da MPB daqueles anos é extensa: Belchior, Fátima Guedes, Elba Ramalho, João Nogueira, Beto Guedes. Ia longe o tempo em que para ser cantor, precisava ter “dom”.

Mas, engana-se quem pensa que a questão é recente ou localizada nos anos 70. Desde os primórdios da música brasileira os cantores de bela voz e os “de voz ruim” dividiram palcos, microfones e opiniões.

Cronologicamente, Vicente Celestino é o mais antigo ídolo da voz no disco e no rádio brasileiros. Celestino vinha de cantar em circos, por isso aliava ao dó de peito a estridência típica dos dramalhões. Francisco Alves, que surge diretamente pelas ondas do rádio, embora já dominasse a técnica do microfone, também optava por cantar como um tenor de ópera, alongando sílabas e caprichando no vibrato. Orlando Silva, beneficiado por avanços tecnológicos mais radicais, veio a inaugurar, no Brasil, o estilo que Bing Crosby já popularizara na América: o som de voz que ressoava nas cavidades do nariz e da boca e que os microfones levavam até os alto-falantes dos rádios instalados em lugar de destaque nas salas das casas da década de 30. A voz de Orlando, o cantor das multidões, convidava a um tipo de “intimidade”, a uma experiência que, simbolicamente, era próxima da conversa.

  • Duchamp - qualquer um pode ser artista?

Este mesmo efeito de “prosa”, de conversa informal, sempre fora o diferencial da canção de rádio no Brasil da primeira metade do século XX. Espécie de crônica cantada do modo de viver das populações dos grandes centros urbanos, a canção popular deu espaço para todos os tipos de vozes, desde que elas tivessem algo de interessante para ser dito. Noel Rosa gravou inúmeras de suas composições e sua emissão vocal de tuberculoso certamente não o colocava na lista dos “bons cantores”. Mário Reis, valendo-se da consciência de que o canto e a fala nas composições de seu tempo, eram, na prática, quase uma coisa só, refinou seu estilo e criou escola.

O fato, por outro lado, de que os sambas fossem compostos, em sua quase totalidade, baseados nas idéias rítmicas da percussão, induzia a cantar reduzindo as durações das vogais e realçando as consoantes, batucando, com a voz, a letra da música.

Quem delineou definitivamente esta maneira de cantar, falada e percutida, no Brasil do tempo de Getúlio Vargas, foi Carmem Miranda. A Pequena Notável “tinha voz”, mas, da constelação de compositores geniais que a procuravam (todos à disposição da cantora mais famosa de seu tempo), pinçava invariavelmente as músicas que lhe permitissem exercitar a agilidade de articulação. Tudo, quando Carmem canta, é ritmo, tudo percute, tudo balança. Os próprios títulos de seus discos já informam: Tico-Tico no Fubá, O Tique Taque do Meu Coração, Rebola a Bola, Mamãe Eu Quero, ou o Bambo do Bambu ficam a um passo da pura sonoridade, da onomatopéia. Assim como sua figura de olhos arregalados, braços e pernas sempre em movimento e turbantes exóticos equilibrados na cabeça, as letras “amalucadas” nos transportam para um lugar de pura brincadeira, de jogo e gratuidade.

Carmem Miranda, é certo se dizer, ajudou a criar, nos anos 30, o modo brasileiro de cantar, quando sistematizou sons percutidos das letras e uma maneira toda própria de entoar as melodias, enchendo-as de ornamentos, pequenos trejeitos que acentuavam ainda mais o caráter lúdico que toda sua performance induzia.

O último momento de transformação pelo qual a voz na música brasileira iria passar ainda estava por vir. Não me refiro a João Gilberto, o mestre que sintetizou o canto-falado do samba brasileiro e o elevou à condição definitiva de arte. Falo de Roberto Carlos, o artista mais influente na música brasileira nos últimos quase 50 anos. Ao protagonizar a Jovem Guarda, o “rei” Roberto, abriu as portas para um jeito de fazer música nunca antes visto no Brasil e que é possível se ouvir em praticamente todas as manifestações da atualidade. Roberto incluiu na composição brasileira o sotaque das canções pop de língua inglesa, suas divisões rítmicas, seus caminhos harmônicos e suas idéias melódicas. No uso da voz a diferença se deu quando, ao invés de simular com finalidades estéticas o ato da fala, Roberto Carlos passou a cantar como se - literalmente - estivesse falando, rompendo assim, no nível da comunicação, a fina e ambígua divisória entre o objeto artístico e a realidade. Foi Roberto Carlos quem primeiro provocou, ali, no início dos anos 60, a sensação de que “qualquer um pode cantar”, porque sua voz soava tão parecida com a das pessoas que o ouviam, seu comportamento era tão despojado e sua temática tão radicalmente cotidiana que passar a “vê-lo” como um vizinho, ou um parente próximo, tornou-se uma decorrência quase inevitável.

A mistura entre quem é o espectador e quem é o artista tem sido a marca da arte do século passado e, ao que tudo indica, deste. Os reality shows trazem esta questão para dentro de nossas salas. A web2 para os nossos computadores. A miríade de bandas pop, rock, funk, emo que pipocam a cada dia em rádios, tvs e myspaces parecem todos confirmar: nossa voz tem que soar o mais verdadeiro possível. Todos nós podemos subir ao palco, desde que o palco seja um lugar muito parecido com a nossa vida. E, assim, a vida de qualquer um pode virar um palco. Como costumam pensar aqueles que não sabem cantar.

*Para quem esqueceu, Os Saltimbancos é uma adaptação do conto tradicional Os Músicos de Bremen e conta as aventuras de quatro bichos que, por terem perdido sua capacidade produtiva, são exilados da fazenda em que viviam. A gata, a galinha, o burro e o cachorro, no fim da história montam um grupo musical, vão morar na cidade e vivem felizes para sempre.

Por Irajá Menezes

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