Resposta à Vera

Irajá: Tem uma frase-feita que tem sido repetida muitas vezes, e não é de hoje: a poesia está morta! As variações são simples e também muito usadas: o cinema está morto, o romance está morto, o futebol está morto. De tempos em tempos aparece alguém para avisar que qualquer coisa morreu. Eu, pessoalmente, adoro anunciar a morte da canção. O pessoal, como diz o Celso, recebe a “notícia” como se fosse um atestado de óbito ao portador!

Outro costume é usar ferramentas analíticas para dizer que uma coisa não é alguma coisa. Estava lendo umas conferências do Webern e, batata, tava lá: “Vejam vocês, senhoras e senhores, as coisas não acontecem assim: ‘Agora eu quero pintar um belo quadro, escrever uma bela poesia’, etc., etc. Sim isto ocorre também – mas não é arte”. Quer dizer, o cara faz um quadro, escreve um poema, mas aquilo ali não pode ser chamado de arte. Pro Webern, pelo que eu entendi, “a arte é uma produção da natureza universal sob a forma particular da natureza humana”. Por mais bonita que soe a frase, tem um fundo obscuro que me incomoda. E eu já li tantas outras!

Porque o que eu estou querendo dizer é o seguinte: quando a gente fala que alguma expressão morreu, o que a gente está indicando é a sensação de esgotamento que aquela expressão desperta na gente. Em geral, anuncia-se a morte de alguma manifestação que teve grande importância. E, de como tudo ao morrer, decorre a necessidade de proceder ao inventário: olhar para trás e reconhecer o patrimônio deixado.

A mesma coisa para esse costume pseudocientífico de desqualificar alguma coisa a ponto de ela deixar de ser o que ela evidentemente é. Qualquer poema é arte? Qualquer quadro? Em princípio, sim. Usar técnicas “estruturalistas” para designar o que é e o que não é “arte” me parece um jeito bastante engenhoso de fugir à questão principal e muito mais espinhosa, a de separar as produções artísticas em “boas” e “ruins”. Porque precisa ver o que merece entrar na partilha! Aplaudir de pé, sempre emocionado! Sempre sorridente! Ou desmerecer tanto que nem “ser” é permitido… Ninguém merece!

Eu tenho impressão que a prática de “julgar” ficou muito desvalorizada nestes tempos de, como diz a Vera, “democratismo tirânico”. Só não vale dançar homem com homem, nem mulher com mulher… que o resto vale! Ao mesmo tempo temos tanto conhecimento do passado, já vimos tanta coisa, temos tanta condição de julgar! Coisa que insistimos em fazer tão pouco.

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