
José Miguel Wisnik em seu livro mais recente, Veneno Remédio: o Futebol e o Brasil, fala de uma “margem improdutiva” que é inseparável do futebol. Uma das singularidades deste esporte sistematizado pelos ingleses em meados do século XIX, seria seu tempo de competição mais “distendido”, “alargado”, que permite abrir-se a uma flutuação de acontecimentos que não se contabilizam, mas que são “inerentes à trama continuada da partida”. Comparado ao futebol americano, ao vôlei, ao basquete ou ao tênis, o soccer admite mais “sobras”, mais “imprevisibilidade”, menos “controle”. O jeito brasileiro de jogar futebol, nas palavras de José Miguel Wisnik, ao mesmo tempo, “surpreendente e belo”, “carnavalesco e trágico”, “pragmático e artístico” veio a superlativizar o uso daqueles espaços em branco, daquelas “brechas”, inventando o que Pier Paolo Pasolini batizou, ao fim da copa de 70 no México, de modo “poético” de jogar bola.
O livro, que mistura inventário histórico e ensaio, mostra como o final do século XX traz a marca da dominância de um princípio de “otimização de rendimento”, presente desde sempre nos esportes. O avanço da globalização tendeu a introduzir, de maneira nunca antes tão incisiva, uma “engenharia” técnico-científica que se realiza através da “objetividade estrita e da ocupação racional do espaço, com aplicação máxima da força física direcionada”, ou seja, um cerceamento cada vez maior das incertezas “poéticas”, substituídas por “esquemas táticos” mais rígidos e exigências de resultados mais “administráveis”.
Não falta quem veja neste movimento de ascensão da “linguagem matemática” a própria morte do futebol.
Podemos pensar, e isto não é difícil, as mesmas questões, por analogia, com o que veio a acontecer com a indústria fonográfica mundial, no início de milênio em que vivemos. Com o acréscimo de que a indústria fonográfica parece estar, definitivamente, jogando os últimos minutos do seu segundo tempo.
A gravação como produto industrial data dos primórdios do século XX. Tanto quanto o futebol ela se insere no grande fenômeno do entretenimento de massas que só veio a existir com a chegada dos meios eletrônicos de comunicação como nós os conhecemos hoje.
Assim como o futebol, o rádio ou a TV, o disco sempre foi encarado pela indústria como “produto” destinado ao “lazer” de grandes platéias, utensílio auxiliar na reposição das energias daquele que trabalha. Apesar disso, do ponto de vista de quem joga bola, ou faz música, profissionalmente ou na rua, a lógica industrial de custos e benefícios nunca deixou de ser um ponto de conflito. Um jogador de futebol ou um instrumentista só se constrói com muita prática, muito treino, muito estudo, mas tire disso o coeficiente lúdico e afetivo, impossível de se traduzir em números, e - qualquer um sabe - o lazer, “remédio” para as dores do dia-a-dia, transforma-se rapidamente em “veneno” mercantilista que não diverte ninguém, seja cantor, jogador ou torcida. Um nó, como definiria José Miguel Wisnik.
Não se pode deixar de reconhecer que a indústria das comunicações no século XX foi pródiga em abrir espaço à invenção. Pense nos Beatles. Pense em Pelé. Por definição a criatividade tem que estar voltada, simultaneamente, à brincadeira e à eficácia. Com o acirramento das “engenharias” econômicas das últimas décadas do século o espaço para as “sobras”, para o “imprevisível”, foi ficando cada vez mais restrito. Pense em Madonna. Pense em Ronaldinho.
Quem sabe, por ironia do destino, o mesmo avanço tecnológico que permitiu o surgimento da indústria fonográfica foi quem levou o negócio dos discos ao colapso. Ao redor do planeta, as pessoas parecem decididamente dispostas a usar os meios de que agora dispõem para conjugar o verbo compartilhar sempre que se fala em “compra e venda”.
Bem, esta foi uma decorrência do processo histórico que, a julgar pela perplexidade dos envolvidos, ninguém previu.
De toda maneira, não há como negar: é como se as pessoas tivessem deixado de reconhecer o “valor de mercado” do tal produto fonográfico. O valor de uso, este parece inabalável. Cria-se, divulga-se e ouve-se música às toneladas. O que será que leva tanta gente a querer fazer isto sempre de graça? Quão tolo seria parafrasear a linha de raciocínio do professor Wisnik, e pensar num “retorno do recalcado”, a arte ou a brincadeira não admitindo ser transformadas integralmente em “produto” cultural e reclamando de volta seus espaços a preencher, resguardando seu direito de criar surpresas? Desmantelando a lógica do “custo-benefício”? E, curioso, quem cria este movimento de redefinição é o próprio público, aquele a quem a indústria sempre recorreu para justificar suas decisões: “É o público quem determina”, o “Consumidor”.
E, voltando à pergunta inicial, “Tem Lugar Pra Todo Mundo?”, parece que a questão é: que lugar? O parque industrial fonográfico, uma grande ruína, lembra um lugar que já houve. Cada endereço na internet é, pelo próprio nome, um “sítio”, multiplicado por números incalculáveis de iPods, cada um, um lugar, em si, capaz de se replicar indefinidamente. E assim temos toda a criatividade à mão, mas com a suspeita de que teremos que nos comunicar sempre em forma de “mensagens na garrafa”. E nunca, antes, tivemos fotos de satélites que nos mostrassem com tanta clareza como o mar é imenso!
Como os tempos são de perplexidade e as respostas ficam, necessariamente em suspenso, melhor continuar formulando perguntas. O crítico George Steiner, do alto de seus quase 80 anos, lembra que “as perguntas importantes” com freqüência são inquietantes. “Existe um comentário lindamente desagradável de Heidegger sobre o porquê de a ciência ser tão enfadonha. Ele disse que é porque ela só tem respostas”.
Por Irajá Menezes