
Quando digo que no Brasil, se uma onda surge, “as coisas todas outras, submergem”, penso também em polêmicas antigas: nos anos 60, a música de protesto quis galgar o posto de possibilidade única. A Jovem Guarda era “alienada”. Na década seguinte, enquanto a imprensa escrita dava muita visibilidade para os artistas “sofisticados” da MPB, quem vendia discos, mesmo, eram os chamados cantores populares. Entre os dois times não houve nunca, muita simpatia. Agnaldo Timóteo adorava “espinafrar” Chico, Caetano, Milton. A turma da MPB também não se colocava muito acessível para os programas de televisão e suas “macacas de auditório”. Isso mudou? Sei não… o Chico César não tem uma música chamada Odeio Rodeio?
Um pouco com se fosse possível reeditar as querelas “setentistas”, um jornal do Rio, o Extra [http://extra.globo.com/], publicou diariamente, entre setembro e outubro uma série de matérias sob o rótulo geral de Chega de Saudade da Bossa Nova - Extra Comemora os Quarenta Anos da MPC, Música que o Povo Canta. Donde se deve concluir que o povo não canta Bossa Nova. Pode ser verdade ou não (Garota de Ipanema não é a segunda música mais gravada do planeta?). O que não deixa dúvida é a posição do Extra. Ah, como curiosidade: quarenta anos são contados a partir da explosão de popularidade do cantor Paulo Sérgio em 1968.
Tomo contato com as idéias do periódico através de um blog, Música Popular do Brasil, [http://www.musicapopulardobrasil.blogspot.com/] mantido pelo colecionador e pesquisador também carioca Josué Ribeiro. Na apresentação do blog, lemos: “Música Popular do Brasil - Inclui TV, Teatro e Música. Do creme dental Kolynos a Roberto Carlos. De Noel Rosa a Waldik Soriano. De Oberdan Junior a Papai Noel. E por aí segue o bloguinho popular. Contudo, o foco sempre será a boa Música Popular do Brasil”.
Como um autêntico dissidente, Ribeiro se refere à música popular do Brasil. MP do B, né? Numa enquete, pergunta: Qual É A Música Inesquecível dos Anos 70? Vou Tirar Você Desse Lugar de Odair José, Sorria Sorria de Evaldo Braga, Cadeira de Rodas (Fernando Mendes), Menina de Trança (Antonio Marcos) ou Eu Não Sou Cachorro Não (Waldick Soriano)? Josué Ribeiro não é homem de esconder seus gostos.
Em post de 20 de outubro, Música Popular do Brasil traz a resenha da recém lançada biografia de Carlos Imperial. Na opinião do blog, Imperial “deixou uma obra considerável, perpetuada em discos, filmes e em músicas como A Praça - abertura do humorístico A Praça É Nossa” (sic).
Noutra postagem, Aplausos Para Wilson Simonal, Ribeiro repisa seus desafetos: “foi a glória do cantor que feriu a tolerância dos militares e dos invejosos de plantão”. Como é sabido, Simonal despencou dos “píncaros da glória” para o mais completo ostracismo ao ser acusado de informante do SNI em plena ditadura militar. Reza a lenda que os responsáveis por seu banimento foram os “esquerdistas” da MPB.
O blog Música Popular do Brasil deixa claras suas preferências. Super saudável. O jornal Extra, também, quando reedita o mau-humor de Agnaldo Timóteo em provocações do tipo “João Gilberto não canta nada”, e “Chico Buarque não sofreu com o exílio europeu, pois ninguém foi para Cuba, e sim para países capitalistas”. O Pasquim entrevistava o Timóteo na primeira metade da década de 70 e ele já se saía com essas.
Como diz sabiamente um funk de muito sucesso: ado, a - ado, cada um no seu quadrado. Se para Josué Ribeiro, “o cara era o cara”, na biografia do Tim Maia, Carlos Imperial é um mau caráter. O interessante é ver como é fácil reeditar a animosidade MPB, MPC, MPB do B e quais sejam. Animosidade antiga e atual (não lembro tempos em que não a tenha visto), fácil de disseminar e que espelha fielmente um pensamento monopolista que se espraia pela história do país. Em minha opinião.
Por Irajá Menezes