Celso Leal e Irajá Menezes inauguram uma coluna de debates do site da Companhia

Irajá: Celso, sobre os vários assuntos que sempre iniciamos e interrompemos por falta de tempo, vê o que acha: eu jogo uma idéia, nós batemos bola por e-mail. Quando sentirmos que pintou uma formulação legal, eu consolido num texto e a gente publica. Pode-se chamar, por exemplo, Forum - reavaliando concepções sacramentadas e outras nem tanto assim, coisa desse tipo.

Celso: Ótimo. Vamos tentar?

Irajá: Olha, tenho pensado que estamos em tempos de re-ver. Pelo que eu sei, todo grande movimento cultural na história aconteceu depois de uma crise das idéias vigentes que o antecederam. A renascença, o modernismo, o pós-moderno. Entre cada momento de esgotamento e de renovação, viveu-se uma sensação de decadência que só pôde ser superada mediante um movimento de revisão. Por exemplo, entre o advento da fotografia e a idéia da pintura impressionista.

Veja um outro exemplo, agora na poesia do Brasil, onde a ação de revisar parece que se faz necessária:

João Cabral de Mello Neto em 1953

Acho o verso livre uma aquisição fabulosa e que é bobagem qualquer tentativa de volta às formas preestabelecidas. Abrir mão das aquisições da poesia moderna seria, para mim, como banir a poesia do mundo moderno. Pois a verdade é que a realidade presente é rica demais para caber nessas formas hoje requintadas e artificiais das épocas de estabilidade cultural.
Isso não se aplica, é claro, às formas da poesia popular que usam a métrica e a rima com absoluta liberdade, sem transformá-las em condição essencial e ponto de partida da criação poética.

(Entrevista a Vinícius de Moraes, Manchete, Rio de Janeiro, 27 de junho de 1953)

João Cabral em 1988

(…) Uma das coisas fatais da poesia foi o verso livre. No tempo em que você tinha que metrificar e rimar, você tinha que trabalhar seu texto.

Desde o momento em que existe o verso livre, todo o mundo acha de descrever a dor de corno dele como se fosse um poema. No tempo da poesia metrificada e rimada, você tinha que trabalhar e tirava o inútil.

(Entrevista a Mário César Carvalho, Folha de SP, Folha Ilustrada, São Paulo, 24 de maio de 1988)

Celso: Que achado hein? Muito bom! Dá pano pra manga, abacate, paletó e tudo o mais…

Irajá: Pois é. Tem outro exemplo, ainda. Está no livro Música Impopular, do Júlio Medaglia, que você me emprestou. Ele, num artigo chamado Rock: AIDS da Música Atual, depois de celebrar o rock’n roll como uma inovação importantíssima no século XX, revê e diz que, a partir da década de 1980 “a nação Woodstock” tornou-se “um vulto no passado”. Em seu lugar ficou um rock padronizado, “destituído de qualquer motivação cultural, técnica, musical, sociopolítica, comportamental ou, seja lá o que for”. Afirma que o som posterior aos 80 exercita uma “musicalidade simplória”, um “histrionismo histérico e narcisista” ou “um baladismo melodoloroso e verborrágico”. Sobre as bandas brasileiras, ele é, talvez, ainda mais radical: “Um país que possuía uma das mais ricas e inventivas culturas populares deste planeta, ficou reduzido a um imenso e imundo pára-lamas de sucessos, através de um rockinho tupiniquim que nada mais é que um subproduto desse vasto detrito que é o rock internacional de hoje”.

Durão, né? Que você acha dessa revisão / metralhadora giratória do Medaglia?

Celso: Eu pessoalmente gosto do Medaglia. Acho suas opiniões corajosas e legítimas. Legitimidade aferida por seu histórico. De fato, um raro Maestro (mestre) que conhece música profundamente, a dita erudita e a popular, e não fede à naftalina do eruditismo. Toda a sua formação acadêmica e sua vivência na música tradicional ficaram a serviço da música popular no Brasil em seu período criativo de 60 e 70. Sinto-me alentado quando um peso pesado desses, fala coisas que eu gostaria de falar ou que falo e ninguém dá bola. Bom seria que essas novas gerações de jornalistas estudassem um pouco de música antes de proceder à crítica da música atual. Falasse quem sabe.

Aproveitando o título da sua nova futura coluna “em minha opinião” me posiciono a favor da revisão, da mudança de opinião. Afinal acho que é isso que faço no meu estudo musical. A cada nova etapa vencida, mudança!, muda meu som, muda minha opinião. Opinião formada? O que é isso afinal? A opinião é como fotografia, instantâneo.

Nessas ocasiões, lembro de uma aula do professor Koellreuter, na época em torno de 80 anos, que apresentou uma idéia e um aluno sabidinho disse: professor, o senhor escreveu um artigo com uma opinião oposta a essa há uns cinco anos atrás. Então ele diz: “é, antes eu pensava assim, agorra não pensa mais”.

Na verdade, se olharmos com um pouco mais de atenção, as opiniões antigas e novas, tanto do João Cabral como as do Medaglia, não são diferentes. Talvez não sejam revisões de conceitos e sim o mesmo conceito de artistas que carregam muita munição criativa e de preparo.

Aparentemente antagônicas, não o são de fato. Enquanto a primeira opinião exalta as inovações e a liberdade criativa tendo em vista o congelamento na arte precedente, a segunda não tendo o que exaltar, expõe a pobreza de idéias e a falta de estrutura da arte atual, que, sim, nasceu daquelas importantes inovações, mas apodreceu por falta de novos conteúdos e de competência artística das novas gerações. Nenhum dos dois deixa de valorizar o que foi feito ali, no auge das novidades, mas sim o que foi feito depois, a simplificação para o consumo fácil, etc. São críticas procedentes, a primeira entusiasmada e a segunda desesperançada.

Acho que de fato a coragem deles é admitir que envelheceram, envelhecemos todos os que fizemos parte da geração da MPB, do rock, da modernidade, etc. A primavera criativa virou inverno. Por isso alguns ficam furiosos quando falamos que o rock, o choro, o samba, o jazz, etc. morreram, ou que “o sonho acabou”; soa como ofensa, é como se estivéssemos assinando os devidos atestados de óbito dos pobres músicos e artistas atuais que ficam tentando parecerem vivos.

Acredito que em outros finais de ciclos (classicismo, romantismo, etc., etc.) muitos sentiram a mesma coisa. A diferença é que em seguida vinham grandes e boas novidades. E agora? Vamos só continuar trabalhando na preservação cultural?

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Um comentário para “Celso Leal e Irajá Menezes inauguram uma coluna de debates do site da Companhia”

#1
Flaviana Guedes Ribeiro 19/02/2009 às 2:08 am

Legal isso em pois adoro cantar mais preciso de muitas aulas

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