
Mais um ano, mais um Natal, muitas canções. E as visões acerca da data e seus significados podem ser inúmeras.
1) “Ai, meu Deus, que sacrifício! O orifício da chaminé era pequeno… Pra me tirar de lá foi preciso chamar os bombeiros”. Termina assim a Véspera de Natal de Adoniran Barbosa. O mito de parentesco nórdico não resiste à transposição para o hemisfério sul e o pai de família, em trajes de “bom velhinho”, ao tentar cumprir sua “jura”, entala na chaminé. A “nêga” e a criançada - enquanto isso - ensaiavam o Jingle Bell. Adoniran, mestre sambista paulistano, consegue permanecer fiel ao seu humor sempre baseado em situações patéticas.
Saí, fui comprar bala mistura,
Comprei também um pãozinho de mel
E cumprindo a minha jura,
Me fantasiei de Papai Noel
Chamei minha nega de lado
“Eu vou subir no telhado
E descer pela chaminé
Enquanto isso você
Apanha a criançada e ensaia o dingo-bé”
Ai, meu Deus que sacrifício
O orifício da chaminé era pequeno
Pra me tirar de lá
Foi preciso chamar
Os bombeiro
2) Outro clássico de Natal brasileiro é o Anoiteceu de Assis Valente. O baiano, compositor predileto de Carmen Miranda, especializou-se em transmitir aquela mistura de humor debochado e amargura que caracterizou sua atribulada vida pessoal: “Já faz tempo que pedi, mas o meu Papai Noel não vem / Com certeza já morreu, ou então, felicidade é brinquedo que não tem”.
Papai Noel, vê se você tem
A felicidade pra você me dar
Eu pensei que todo mundo
Fosse filho de Papai Noel
Bem assim felicidade
Eu pensei que fosse uma
Brincadeira de papel
Já faz tempo que eu pedi
Mas o meu Papai Noel não vem
Com certeza já morreu
Ou então felicidade
É brinquedo que não tem
Papai Noel, vê se você tem
A felicidade pra você me dar
3) Numa busca simples pela internet é possível encontrar muita gente cantando o Natal: Carpenters, Mariah Carey, Rudolph, a rena de nariz vermelho, Perry Como, Tony Bennet, Ashley Tisdale. Estas são, em sua maioria, mensagens convencionais de “Happy Holidays”. A sensação de que os artistas estavam atendendo tão somente às demandas de mercado por produtos natalinos fica inevitável. João Gordo, cantor da banda punk Ratos de Porão garante que o “arquetípico” Santa Claus todo em tons de vermelho vivo foi inventado por publicitários da Coca-Cola nos primórdios do século XX.
4) Diferente é ouvir Bing Crosby e Marjorie Reynolds cantando o White Christmas de Irving Berlin (o single mais vendido em todos os tempos!) e perceber a candura que suas vozes “clássicas” agregam à canção.
5) Ainda outra visão está contida no libelo pacifista de John Lennon em Happy Xmas (War is Over); Nada de pinheirinhos! A pergunta vem logo de início: “What have you done?”. Mas será que John e Yoko tinham razão ao afirmar que a guerra acaba “se você anseia por isso”? No youtube é possível assistir uma versão da música com imagens terrivelmente ilustrativas da persistência da guerra ao redor do planeta, a despeito de nossos desejos.
6) Apesar de tudo isso, Dean Martin cantando um Christmas Blues ou o Monteverdi Choir, Bernarda Fink e a English Baroque Soloists, regidos por John Eliot Gardiner no Schlafe, Mein Liebster do Oratório de Natal de Bach, parecem ter o poder de nos afastar de qualquer dúvida. O Natal recupera aí sua mensagem de calor e solidariedade humanos, acima das divergências históricas, comerciais ou religiosas. Pela simples beleza que emana de vozes e instrumentos musicais.
[clique aqui para baixar a música]
“Schlafe, Mein Liebster” do Oratório de Natal de Bach.
Happy Xmas (War Is Over) - John & Yoko
Bing Crosby - White Christmas