Monica Parmigiani & Companhia Kids - Brinque de Ser Sério e Leve a Sério a Brincadeira

Irajá Menezes bate um bem-humorado papo virtual com Monica, da Unidade Alto de Pinheiros. Na pauta, CD Kids 2008, entre outros assuntos

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Sobre o ensino de música para crianças, Celso Brescia Leal, coordenador da Companhia das Cordas, diz:

“Sabemos que as crianças estão sempre prontas para aprender. Cabe a nós, pais e educadores, mostrar caminhos e incentiva-las a seguir em frente em tudo que julgamos ser importante para sua formação. Hoje sabemos também da importância da música no desenvolvimento dos pequenos em aspectos sociais, culturais, cognitivos, de saúde e criativos.”

“Conscientes disso, nós, da Companhia das Cordas, procuramos desenvolver nosso trabalho de musicalizar e ensinar a tocar instrumentos a estes pequenos, com a maior dedicação e dentro de um ambiente agradável. Nosso trabalho é aquele de quem procura deixar abertas as janelas: uma constante busca por melhorias e muita alegria por estarmos trabalhando com algo tão nobre como a música.”

Na unidade Alto de Pinheiros, já há alguns anos, a Companhia Kids conta com a presença de Monica Parmigiani, multi-instrumentista, que compõe, canta, produz discos e é reconhecida por alunos e seus familiares, assim como por seus colegas professores, como alguém que “coloca fogo” no aprendizado das crianças.

Para iniciar a conversa, proponho para a Monica, por MSN

Companhia - Gostaria que você descrevesse o trabalho que vem se desenvolvendo com as crianças na Companhia Kids da Unidade Alto de Pinheiros. Que músicas estão no repertório; quem as compôs; como os alunos se colocam em relação ao trabalho; como são feitas as gravações dos CDs Kids; e tudo mais que você considerar que ajude a “descrever” o projeto.

Queria também um histórico do trabalho: como surgiu a idéia, como começou, quem se envolveu, quando, etc.

Estou tentando responder os famosos “o que”, “como”, “quando” e “por que” do assunto, né?

E ela, naquela irreverência que lhe é característica, escreve, “na lata”:

Monica - O negócio é o seguinte: a aula não pode ser quadrada como essas suas perguntas (rsrsrsrs). Tem que brincar sem perceber que está aprendendo. Mas antes, queria dizer que, como uso muito a intuição e invento coisas o tempo todo, eu vou preferir chamar esse nosso bate-papo de reflexões: o menos fechado possível! Também é importante pensar na diferença entre musicalização e iniciação musical. Quando falo em musicalização é pra crianças pequenininhas; iniciação para maiores.

Leia a entrevista na íntegra

Monica - Como eu dizia, tem que brincar sem perceber que está aprendendo. Vai daí o repertório ser, não vou dizer importante, mas, sim, fundamental! Às vezes, tem gente que critica quem ensina as crianças a tocar High School Musical, p.ex. De minha parte, prefiro dar aula pra gente feliz. Agradeço à nossa cultura popular (não só aquela das cantigas de roda), ao Palavra Cantada, à Ruth Rocha e Cecília Meireles, àqueles meninos que inventam danças, a tudo e todos que de repente me fazem perceber um elemento musical em cada manifestação. De cada uma delas eu retiro um (ou mais) materiais, e vou linkando com a música.

Companhia - Em suma, não há, não pode haver preconceito?

Monica - Isso mesmo. Bom, tem as músicas que ninguém ousa contestar, seja roqueiro, pagodeiro, ou encrenqueiro: são as músicas de compositores eruditos, tipo Bartók, Prokofiev, mas, veja, Pedro e o Lobo, tenho os temas escritos de modo que as crianças possam tocar, o Gato pode ser tirado facilmente no violão. Hoje inventei uma aula de ritmo na bateria, aproveitando uma “coreografia” que meu aluno me ensinou. Aí foi sopa no mel: ele já tinha incorporado, quem sabe inconscientemente, a pulsação e o andamento, então a gente colocou aquilo na bateria. Só vendo! Inclusive, era mais fácil filmar do que descrever. O aluno seguinte aprendeu o que eu e o anterior inventamos. E assim também se inventam as músicas e os arranjos, experimentando os instrumentos até chegar à conclusão de qual ficou melhor, ou qual foi mais gostoso de tocar…

Temas de filmes também são legais: Pantera Cor de Rosa, Harry Potter, Rei Leão, Mary Poppins, e aí já me lembrei de uma coisa chamada interdisciplinaridade (credo, comprida que dá pra errar um monte). Meus alunos que insistem em cantar em inglês acabam exercitando o idioma, já que eu falo mais ou menos (estudo também). Ah, eu trouxe dos EUA um método do Gymboree, que, para crianças pequenas e que estudam em escolas bilíngües, foi tudo-de-bom, cantar em duas línguas, e quando o som muda, o arranjo e tudo muda também …

Companhia - Vamos ao histórico?

Monica - Deixa ver, eu trabalho na Companhia já faz uns sete anos. Começou que minhas aulas eram oferecidas gratuitamente para os alunos abaixo de 12 anos. Era um tipo de prática de conjunto, já que as crianças eram alunas de instrumento, depois é que começamos a montar grupos de iniciação ou musicalização.

Sabe que eu não lembro quem me indicou, se foi a Scheila do Sesc, ou a Cecília Valentim… e naquele momento em que o Celso me chamou eu havia acabado de sair da Laramara, onde trabalhei por quase dois anos com deficientes visuais. O Celso gostou porque eu não seguia exatamente um método, não tinha influência nítida em termos pedagógicos usuais (Orff, Kodály, Violeta Gainza, etc.) então (e acho que ele estava certo) acabamos criando um curso para crianças com a cara da Companhia (e a minha…). Daí eu fui ver melhor o que esses educadores que eu citei aí atrás faziam, ou seja, fui estudar mais, mas sempre com o objetivo de fazer a criança tocar. De preferência com instrumentos de verdade, violão, baixo (tem um pequeno na escola), bateria pra aprender ritmo, etc. Entendeu? Eu faço as coisas misturando tudo. Pra ser sincera, eu sempre acho mais fácil inventar do que aprender. Mas, é só eu ler alguma coisa, que normalmente já me vêm idéias para passar determinado conceito para o aluno.

No resumo, é assim: cada música tem um conteúdo musical a ser aprendido e apreendido. Em uma a gente prioriza o aspecto da forma, em outra o rítmico, em outra a gente mistura dois aspectos… e outra: a criança sai alfabetizada e achando legal porque, como eu, ela é capaz de tocar vários instrumentos…

Companhia - Fale um pouco sobre o novo CD da Companhia Kids.

Monica - O CD que nós estamos produzindo atualmente deverá ser mais ou menos assim:

  1. Canções que eu considero “de trabalho”, normalmente executadas pelos menores, com a possível participação dos maiores pra dar uma força; são as que têm conteúdos pedagógicos específicos, músicas como O Ar da Bia Bedran, O Silêncio, do Arnaldo Antunes, This Pretty Planet do Tom Chapin - essa última foi utilizada para acordar os astronautas numa das missões da Challenger; descobri essa canção porque estive nos EUA e ela tem sido muito executada nas escolas de lá. Acho que o inglês é simples, dá pra falar e entender, e vai aí uma outra coisa: no Brasil, a questão do inglês X português (se quiser cantar em inglês, TEM QUE FALAR DIREITO!!!)
  2. Músicas compostas pelos próprios alunos.
  3. Músicas, que ficaram legais, dos alunos de instrumento/canto (como, por exemplo, quando escolhemos uma música porque dá pra colocar um cello legal).
  4. Uma música do filme Camp Rock, já que não dá para fechar os olhos para esses fenômenos.
  5. Talvez alguma coisa com o grupo de prática de conjunto.

Planejo começar gravando primeiro as músicas que envolvem grupos menores, para que eu tenha a menor participação possível nas execuções o que não ocorreu no primeiro CD Kids. Estou na fase final da escolha do repertório.

Pode ser que eu me lembre de mais alguma coisa, daí eu falo, tá? Beijos.

Companhia - Obrigado.

Cleber Alves fala sobre os Shows Kids e os CDs infantis da Companhia

“Música é uma conversa, mesmo as crianças pequenas percebem isso. Então, seja no palco ou gravando, ao se apresentarem para o público, além de terem a oportunidade de mostrar seu desenvolvimento e acompanhar o dos colegas, a conversa fica completa, o ciclo se fecha e o sentido de dominar o fazer musical fica evidente. E isso, mais do que a mera exibição das habilidades adquiridas, é um grande estímulo para seguir em frente”.

Baixe algumas faixas do CD Kids

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